segunda-feira, 11 de abril de 2016

Toda crítica é 'ad hominem'! - Por Dyego Phablo Santos Porto


Toda crítica é 'ad hominem'!


Dyego Phablo Santos Porto
Graduado em Direito pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI;
Conciliador do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí - TJPI.


Discordo da ideia corrente na academia de que devemos evitar 'críticas ad hominem'. Obviamente que não estou dizendo que, num debate, as pessoas devem proferir discursos personalistas, como desqualificar o interlocutor por questões relacionadas à sua vida, insultando-o, xingando-o etc. Não é isso. Quero dizer, isso sim, que toda crítica inevitavelmente será 'ad hominem', mesmo que o debate se dê de forma civilizada. Quero apenas dizer que, por não sermos amebas vagando soltas por aí, e sim seres existentes que fazem escolhas, que se implicam nessas escolhas, que se implicam naquilo que dizem - o que significa, em última instância, engajar-se precisamente naquilo sobre o qual nós mesmos falamos (eu sou o que digo) -, é justamente por isso tudo, que nossas ideias somos nós mesmos. 

Quando falo de Direito não estou falando duma coisa apartada de mim, senão que estou despejando toda minha carga existencial no curso que escolhi lá no vestibular, de minha aproximação com as humanidades, de ir morar só numa cidade etc., de forma que eu, Dyego Phablo, e o Direito, somos uma só e mesma coisa; então, quando criticam o Direito, quer queira, quer não, estão já me criticando – para o bem ou para o mal, ou para além deles, já estou contaminado; quando, igualmente, criticam uma postura teórica tomada por mim, por mais que meu interlocutor não me ofenda, sua crítica será 'ad hominem' pelo singelo fato de, em determinado momento da vida, eu ter me apropriado de tal discurso por uma série de motivos: beleza, elegância, moda, poder, sedução, demanda por atenção/amor etc. Aliás, a questão da verdade é, também, uma questão de sedução: somos seduzidos, somos atraídos por discursos que, por algum motivo particular, tocam em nossas vidas, produzindo sentidos.

Nós somos esse 'patrimônio' todo porque os discursos atravessam nosso corpo, marcando-o de significâncias perceptíveis através das sensações (visão). Nosso nome é legião. Quando alguém me vê, não vê um 'Dyego Fundamental', solto, vagando por aí, e sim um Dyego de tal ou tal forma, que gosta disso ou daquilo, ambíguo, contraditório, cheio de defeitos, narigudo etc. É como se eu já estivesse junto a tudo isso [1]. O que se vê, portanto, é o Dyego e sua relação familiar de significâncias que possui com o seu mundo, ocupado com isto ou aquilo.

Ainda que não se conheça a pessoa, o que ela traz em si, o seu desde já sempre, enfim, a sua lida diária com os entes no mundo, irá se manifestar em atos, numa conversa informal sobre culinária, política, direito, religião, música etc. E é justamente aí, nos atos, que existimos [2]. Há em todos nós algo de visível e invisível. Em linguagem hermenêutica, o como apofântico (discursivo, mostrativo) é visível; o como hermenêutico é invisível. Mas está lá.

Portanto, toda crítica é 'ad hominem', porque todos nós somos humanos jogados na existência, fazemos escolhas e projetamos o futuro. Somos o nosso passado e, ao mesmo tempo, estamos sempre adiante de nós mesmos, projetando o futuro. A crítica ao que o Dyego pensa é a crítica a isso tudo o que o Dyego é. Só por uma quimera ilusão metafísica se poderia pensar que falar da ideia que o Dyego se apropria não seria já falar dele mesmo.

O jogo de intertextualidade presente em meu (no nosso) discurso já denuncia a dificuldade em estabelecermos uma zona de separação entre quem fala e o quê se fala, já que a significação é infinita e começa antes da significação, além do que a linguagem não possui dono. As ideias são socializadas em uma sociedade, elas circulam simbolicamente em certos espaços, e por isso nunca trataremos somente delas. Mostrá-las é expor uma sangria da realidade composta por sujeitos concretos.

Quando cito um autor o que estou, na verdade, é me citando. Logo, quando criticam o autor que cito, por via reflexa, mesmo que de foram inconsciente, também me criticam, porque quando decidi me engajar com tal ideai o que estava em jogo era minha própria existência. Eis o caráter existencial das escolhas.
Citar é citar-se, é pôr o 'eu' no discurso do outro, assumindo o ônus daí decorrente, marcando uma diferença, mas também obrigando-me a aceitá-lo ou negá-lo, já dizia genialmente Luis Alberto Warat.

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[1] É a manifestação do mundo compartilhado, como diz Heidegger: “O que vem ao encontro é o que é e como é, enquanto ‘esta mesa aí’, junto à qual nós diariamente comemos (impessoalmente e, também, alguém bem determinado), na qual em certa ocasião se levou aquela conversa, se jogou aquele jogo em que estavam também juntos aí tais pessoas determinadas, isto é, no ser-aí da mesa, elas ainda continuam estando junto dela; este livro aí, dado de presente por fulano e que, por sua vez, foi mal encadernado por sicrano. Faz-se alguma coisa de tal modo que, aos outros ou diante dos outros, aparece desta ou daquela maneira [...]” (HEIDEGGER, Martin. Ontologia: hermenêutica da faticidade. Tradução de Renato Kirchner. Petrópolis: Vozes, 2012, p.103).

[2] “[...] Aqueles que convivem com alguém, aqueles que, ao serem aí na cotidianidade, numa primeira aproximação e na maioria das vezes não vêm ao encontro isoladamente de maneira expressa, mas se manifestam precisamente naquilo que fazem, naquilo com que se ocupam –  destaques meus [...]” (HEIDEGGER, op. cit., p. 104).


2 comentários:

Dyego Phablo disse...

Fico honrado pela postagem no blog. Valeu!

Danilo Cruz. disse...

Que é isso... o "Blog Piaui Jurídico" é que fica honrado com valorosa colaboração!
Saudações hermenêuticas...