terça-feira, 30 de junho de 2015

Descompasso.


(...)
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade
(...)
Fernando Pessoa . 30-12-1934
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 71.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O "absurdo" de 100 anos atrás... e parece tão atual...


Livro do Desassossego - Bernardo Soares


ABSURDO


Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é (o) divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas — agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam — talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.

s.d.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
 - 460.

"Fase decadentista", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

29 de Junho - Dia de São Pedro

Festas Juninas... festas que aquecem todos os corações...



(...)
Voei... Voei... 
Para o meu amor encontrar 
E quando beijei o teu rosto 
A lua veio nos admirar 
É que era São João 
E mais ardente o amor se dá 
Junto à chama da fogueira 
Novos sonhos vão rolar...
(...)



(...)
E o calor que eu sinto é 
O amor que você me traz 
Pois você pedaço de mau caminho 
É delirar, enlouquecer devagarinho 
Viver ao léu pairando solto pelo ar 
Na esperança de te ver, te encontrar
(...)

sábado, 27 de junho de 2015

Este artigo traz a descrição perfeita do caos instalado no ensino jurídico brasileiro...


Recomendo veementemente a leitura do artigo "Cultura de massa e o ensino jurídico standard no Brasil" dos Professores Rafael Tomaz de Oliveira e Victor Drummond..

Abraço,

Estou lendo...



O dorso do tigre - Benedito Nunes


Movendo-se livremente tanto na esfera dos conceitos filosóficos como na via sensível da obra de arte, Benedito Nunes é um caso raro de intelectual. Como observou Antonio Candido, por reunir as qualidades de filósofo e grande crítico literário, o autor traz, para a literatura, um nível de abstração rigorosa poucas vezes alcançado e, para a filosofia, um apurado sentimento estético.

Publicado originalmente em 1969, O dorso do tigre é um marco no horizonte da interpretação literária e da reflexão filosófica entre nós. Nos sete ensaios da primeira parte, o autor analisa algumas das principais contribuições à filosofia contemporânea, entre elas a de Foucault e Heidegger, de que é um dos maiores intérpretes em língua portuguesa. Da segunda parte do livro, constam ensaios que renovaram os estudos sobre Clarice Lispector ("A experiência mística de G. H.", "Linguagem e silêncio"), Guimarães Rosa ("O amor na obra de Guimarães Rosa") e Fernando Pessoa ("Os outros de Fernando Pessoa"), para citar apenas alguns.

No todo, o leitor não deixará de notar o firme compromisso com o trabalho intelectual, a larga erudição e o discernimento profundo no trato com a cultura. Tudo isso não para "domar o esquivo tigre da criação" — como assinala Affonso Ávila em texto incluído como posfácio a esta edição —, mas sim "iluminá-lo pela reflexão crítica, para então compreender, com olhos de inteira lucidez, as cores reais de seu dorso cambiante, o seu exato sentido e destinação".

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sobre encontros... - "A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida!" (Vinicius de Moraes)


Existem pessoas que se fazem necessárias conhecer.
Em 2015 conheci uma pessoa assim... indispensável e necessária ainda que sua ausência física, em razão de um desencontro geracional, pouco represente frente a imponência metafísica de suas ideias (e como estas últimas rareiam no mundo…)
Falo de Benedito Nunes(Belém, 21 de novembro de 1929 - Belém, 27 de fevereiro de 2011) - filósofo, professor, crítico de arte e escritor brasileiro.
Eis uma daquelas vozes redentoras... de fluido pensamento poético, representação humana daquilo que se chama condição de possibilidade e intérprete fecundo de Heidegger e Clarice Lispector, dois espíritos livres como o seu...
Salve Benedito Nunes!



Este ano, de autoria de Benedito Nunes, já li:




Ainda sobre as "Biografias não autorizadas"...


Endossando, ainda que de soslaio, a postagem que fiz na data de 15/06/2015, recomendo veementemente a leitura do artigo "Liberdade de expressão e biografias não autorizadas — notas sobre a ADI 4.815" do Prof. Ingo Wolfgang Sarlet.

Abraço,

terça-feira, 23 de junho de 2015

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Sobre democracia...


Hoje, segunda-feira, ao acordar respirei fundo e roguei a Deus um bom dia...
Aí eu esqueci do bendito livre-arbítrio (ou condição de possibilidade em Heidegger) e inventei de acessar a Folha de São Paulo onde acabei me deparando com a seguinte pérola:  "A democracia é o exercício solitário de pensar no que é melhor para a maioria das pessoas" (leia aqui)
Eu pensei, que lástima... por que a galera aqui do lado de baixo do equador confunde democracia com tirania...? Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica que sempre precisará de ridículos tiranos?
E como o dia ainda está na metade, reforcei minha fezinha...
Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz...

sábado, 20 de junho de 2015

O Dasein em Mafalda...





segunda-feira, 15 de junho de 2015

Sobre a Felicidade...


"É verdade que amamos a vida, não por estarmos habituados a viver, mas por estarmos habituados a amar.
Há sempre alguma loucura no amor. E também há sempre algum fundamento na loucura.
E mesmo para mim que estou bem com a vida, parece-me que as borboletas e as bolhas de sabão, e o que mais existir igual a elas entre nós, sabem melhor desfrutar a felicidade."

Friedrich Nietzsche - 1885 
in Assim falou Zaratustra. São Paulo: Martin Claret, 2014, p. 46

Sobre as "Biografias não autorizadas"...


Particularmente não concordo com a amplitude da decisão do STF e tratarei das razões em artigo que talvez saia ainda este ano.

No mais, é importante destacar que com tal decisão o Estado (Jurisdição) concebe a transformação do direito em pecúnia e limita a proteção jurisdicional à tutela pelo equivalente em dinheiro, aceitando assim, que os direitos e as pessoas sejam iguais e admite a sua falta de responsabilidade à proteção específica das diferentes posições sociais e das diversas situações de direito material (1).

Tenho por inconcebível que: i) arranjos retóricos forjados para agradar aos ouvidos do senso-comum, tais como: “...sem liberdade de expressão e de informação não há cidadania plena, não há autonomia privada nem autonomia pública...” ou “...a liberdade de expressão é indispensável para o conhecimento da história, para o progresso social e para o aprendizado das novas gerações.” ou “...primazia prima facie da liberdade de expressão no processo de ponderação. [onde] Seu afastamento há de ser a exceção e o ônus argumentativo é de quem sustenta o direito oposto...”(2); ii) sincretismos metodológicos e iii) falácias filosóficas tenham servido de fundamento a impingir um rompimento da higidez lógico-estrutural do ordenamento de base constitucional legitimamente fulcrado sobre os pilares dos Direitos Fundamentais (que não concebem hierarquização e muito menos preferencialidade).

Existe um antigo provérbio chinês que diz: Há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida. Bem... eu fico a indagar com meus botões... como fica a tutela dos direitos que a priori não comportam equivalência em pecúnia? Pra que serve institutos processuais como a tutela inibitória? Como fica o desenvolvimento doutrinário que na busca evolutiva conseguiu estampar no Art. 497 § único do NCPC/2015 a superação do desarrazoado vínculo entre ilícito e dano...; Como desprezar a ideia de intimidade, tão bem definida por Paulo José da Costa Jr. como sendo aquela que "muitas vezes não implica solidão, já que o homem pode trazer para sua companhia os fantasmas que mais lhe apeteçam... é aquela de que o indivíduo goza materialmente, apartado de seus semelhantes... [onde] o indivíduo afasta-se da multidão. Recolhe-se em seu castelo. Desce às profundezas de sua alma e sai em busca de seu ser."(3)

Ora, se "interpretar não é tomar conhecimento do que se compreendeu, mas elaborar as possibilidades projetadas no compreender"(4), onde foi que se perdeu a parte que deveria se projetar relativamente à vida do biografado que implica na assertiva... "se eu não tornei público este momento da minha vida então ela interessa só a mim..."

Fica a lição aos hermeneutas, “…compreender não diz agarrar a realidade com esquemas já dados, mas deixar-se tomar pelo que faz a compreensão buscar compreender…” (5)

Até,

__________________________
1 - CRUZ, Danilo Nascimento. Proto-filtros-conceituais para leitura do NCPC/2015 - (Parte 2). Disponível em: http://emporiododireito.com.br/proto-filtros-conceituais-para-leitura-do-ncpc2015-parte-2-por-danilo-nascimento-cruz/ ISSN 2446-7405. Acesso em: 15/06/2015.
2 - Fragmentos retirados do voto do Ministro Roberto Barroso.
3 - COSTA JR., Paulo José. O direito de estar só. 4ª ed. São Paulo: RT. 2007. p. 10-11
4 - HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 209.
5 - SCHUBACK, Marcia Sá Cavalcante. “A perplexidade da presença.” in HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 17.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

(...)


"Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as coisas como verdadeiramente são — como são para os outros.
Sinto isto."

Fernando Pessoa - 1915?
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 27.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Li e recomendo - 10 Lições sobre Heidegger



Olá amigos,

Venho recomendar "10 Lições sobre Heidegger".
Uma pequena grande obra! 
Das obras introdutórias ao pensamento Hedeggeriano que já li esta foi a que mais se aproximou verdadeiramente de um livro para iniciantes. A obra oportuniza, do modo mais uniforme possível, um encontro com os principais projetos filosóficos de Heidegger em conexão aos seus conceitos e questões mais fundamentais.
Não podemos negar eventuais falhas, principalmente redacionais, mas nada que impeça ou mesmo dificulte a leitura... 
Como ponto a favor, temos o combo: bom conteúdo em linguagem acessível por um preço módico.
Parabéns à Editora Vozes.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Sobre a felicidade...


quinta-feira, 4 de junho de 2015

"O inferno são os outros" - Jean-Paul Sartre


Parabéns ao "Boticário" pela bela campanha publicitária!



"(...) sou um individualista absoluto, um homem livre e um liberal. E isto faz que tenha uma perfeita tolerância pelas ideias dos outros, que seja incapaz de considerar um crime o pensar outro do modo que não penso."
Fernando Pessoa - 1928
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.  - 217.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Sobre os canalhas institucionais...


"Os canalhas se amontoam por todos os lados, entre eles, o canalha institucional. (...) Este fala sempre no coletivo, esmaga todos à sua volta, cuspindo regras e decisões coletivas cujo objetivo é apenas se esconder de seu medo maior, sua mediocridade individual. O enfrentamento indivíduo-indivíduo é seu maior medo, porque sua individualidade é nula. Ser indivíduo é um ônus que poucos suportam."

PONDÉ, Luiz Felipe. A filosofia da adúltera: ensaios selvagens. São Paulo: LeYa, 2013. p. 49.