quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Feliz 2015...

Que 2015 chegue como uma Ode de Fernando Pessoa...


DOIS EXCERTOS DE ODES
(FINS DE DUAS ODES, NATURALMENTE)
Álvaro de Campos
                I
......
Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.
Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.
Na distância subitamente impossível de percorrer.
Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela.
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto.
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena.
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.
Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes.
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos.
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...
Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!
Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé antepé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.
Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,
A lua começa a ser real.


30-6-1914
“Dois Excertos de Odes (Fins de duas odes, naturalmente)”.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
- 155.

1ª publ. in Revista de Portugal, nº4. Lisboa: Jul. 1938.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Sobre os bastidores do processo de redemocratização pós golpe militar de 64...


"Cada recuo do regime foi entendido como consequência de uma pressão das forças libertárias da sociedade. A fé em que 'o povo unido jamais será vencido' é insuficiente para explicar mudanças ocorridas antes que aparecessem, como tais, as pressões. É este, por exemplo, o caso da suspensão da censura à imprensa, processo cautelosamente iniciado em 1974 e concluído dois anos depois. 

Atribuir o fim da censura a qualquer tipo de pressão direta sobre o governo seria um exagero, pois se a censura tem uma utilidade, esta é a de colaborar decisivamente para a desmobilização política da sociedade. Atribuí-lo a um movimento dos proprietários de jornais, revistas e emissoras, um despropósito. Devê-lo a uma resistência maciça dos jornalistas, cortesia impossível. O fim da censura só se explica através do complexo mecanismo de uma decisão imperial do presidente Ernesto Geisel: 'Recebi no palácio todos os donos de órgãos de comunicação. Nenhum me pediu o fim da censura'. Quem pedisse perderia seu tempo.

Para quem quiser cortar caminho na busca do motivo por que Geisel e Golbery desmontaram a ditadura, a resposta é simples: porque o regime militar, outorgando-se o monopólio da ordem, era uma grande bagunça."

GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. 2ª ed. rev. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. p. 43.

Professor David Jackson: Adverse Genres in Fernando Pessoa - Yale University.



Eros e Psique de Fernando Pessoa - Por Maria Bethânia



Onde estará o meu amor? - Por Maria Bethânia.



domingo, 28 de dezembro de 2014

Asa Morena - Zizi Possi



Comissão Nacional da Verdade


 Um canal que deve ser acessado:

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

domingo, 21 de dezembro de 2014

"Top Five" do que li em 2014 e como começarei 2015...


Olá amigos,

Fim de ano chegando, tempo de fazer um review. Fiz uma lista "top five" dos melhores livros jurídicos e não jurídicos em que mergulhei neste ano, além da releitura especial.
Os livros que seguem são muito bons, espero que despertem o interesse dos leitores do blog. Alfim, os livros com os quais iniciarei 2015.

Abraços,

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Top Five - Não Jurídico


Top Five - Jurídico

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

"(...) esse é o tempo ansiado, de se ter felicidade (...)" - Roberta Sá - Pressentimento.


Roberta Sá é triplamente grandiosa: Voz - Beleza - Interpretação.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Direito e Literatura | Medida por Medida, de William Shakespeare.




(...)


“...o Poder Judiciário pode e deve ser criticado. É que estamos mal habituados a uma autêntica sacralização da justiça, pela qual os advogados são, talvez, os maiores responsáveis. Dos tribunais se costuma dizer sempre que são ‘egrégios’, ‘colendos’, ‘altos sodalícios”, e do Supremo Tribunal comumente se diz que é o 'Excelso Pretório'.

Dos juízes, que são apenas funcionários do Estado encarregados de dirimir os conflitos judiciais, se diz sempre que são ‘eminentes’, ‘ínclitos’, ‘meritíssimos’, ‘doutos’, ‘ilustres’, etc.

As sentenças são sempre ‘venerandas’ e ‘respeitáveis’, por mais injustas e iníquas que possam ser. Nada disso tem sentido num regime democrático e republicano, no qual a justiça se faz em nome do povo, fonte primária de todo poder”. 
in Advocacia da Liberdade, Forense, Rio de Janeiro, 1984, p. 199.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O proporcional e o razoável...


Semana passada estive presente num julgamento plenário de um tribunal e o que mais ouvi foram advogados e alguns membros da referida corte falando de "princípios da razoabilidade/proporcionalidade" para justificar teratologias fáticas frente a legislação que regulava os casos em julgamento.

Aceitar estultices jurídicas como as que foram defendidas, com o ilegítimo status de "argumento de autoridade", sem a possibilidade de manifesto, é dureza... ainda mais para um professor de constitucional...

No mais, e embebido do mais sincero sentimento de resignação, trago ao menos o link do artigo "O proporcional e o razoável" do Prof. Virgílio Afonso da Silva, para que assim quem sabe, algum daqueles acima mencionados ainda que tendo por guia o descuido o acesse e com sua leitura consiga obter a salvação de seu tão pouco evoluído espírito jurídico...

Abraços...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014