segunda-feira, 30 de junho de 2014

domingo, 29 de junho de 2014

Entre famas e cronópios, mediação com Warat nos leva à literatura - Por Alexandre Morais da Rosa - Fonte: Conjur

Consultor Jurídico

Diário de Classe

Entre famas e cronópios, mediação
com Warat nos leva à literatura

28 de junho de 2014, 08:00h
Por 
Ele influenciou toda uma geração de gente aturdida à procura de um mestre. Este lugar de oráculo, todavia, nunca foi por ele ocupado, embora muitos assim o quisessem. Ao não aceitar guiar, apontar o caminho, foi criticado, negado histericamente, ainda que mais tarde (quase) todos tenham se rendido à postura manifestamente ética de Luis Alberto Warat: apostar na capacidade de enunciação do sujeito. Teria sido mais fácil, especialmente para os que cultivam um “narcisismo pedante”, próprio da academia, ter fundado uma “seita jurídica” qualquer, na sua modalidade mais contemporânea, a saber, uma “seita jurídica da salvação”. Mas não. Sabia Warat que não há salvação concedida, completude prometida, pois isto é empulhação imaginária. E o lugar dos salvadores sempre é o do canalha. Restou, sempre, a aposta. A aposta no sujeito, na sua autenticidade, carnavalizando as certezas.
Foi uma convivência intransitiva. Depois de um longo luto, enfim, começo a conseguir falar e apresentar à nova geração sua obra. Uma dívida comigo mesmo. Luis Alberto Warat se foi para ficar. Com ele era impossível não fazer o impensável. Um camaleão de sentidos que apostava no sujeito e, nos últimos tempos, na mediação. Trabalhei com Warat e Juan Carlos Vezzula, nos anos 2000. Desde então acredito na mediação. Não em qualquer mediação, mas na mediação laica.
Talvez uma das chaves para entender a proposta de Warat sobre mediação possa estar na leitura cruzada, ou seja, como metáfora, da literatura, recurso utilizado por ele diversas vezes. Por isso a invocação de Cortazar e seu fantástico livro História de Cronópios e Famas, justamente para indicar duas posições diferentes, a saber, os famas como sujeitos matemáticos, estatísticos, ordenados, loucos por protocolos de atuação. Já os cronópios, por seu turno, gente que aceita o convite da vida, do inesperado e de bom grado a surpresa da faticidade, sem querer impor um padrão de vida. A opção entre famas e cronópios, no caso da mediação, dá a dimensão do que se passa. Embora o discurso seja de aceitar o outro e a violência que ele sempre traz consigo, muitas e muitas vezes o deslizar para “consertar” o sujeito, a relação estabelecida entre os envolvidos, faz com que os famas-mediadores neguem o fundamento da mediação, alienadamente. Assim, parece, com acerto, que somente uma postura de mediador-cronópio pode promover uma mediação sem salvação transcendente, já que vivem o mundo poeticamente.
É que não se pode fazer uma leitura linear do conflito, nem o entender como uma imagem. Ele é sempre a narrativa parcial de uma realidade sustentada por um sujeito que enuncia e que precisa de uma fusão de horizontes (Gadamer) num espaço compartilhado, desprovido, ademais, de verdade verdadeira/fundante. A realidade entendida como limite simbólico, portanto, da ordem do singular, impede que a leitura da realidade única possa se estabelecer, como de regra acontece no plano do Direito. Há um para-além do dito, no qual o sentido de uma possibilidade de interlocução e responsabilização, por básico, demandam um procedimento específico para produção de verdades, sem transcendência. Uma mediação laica, assim, parece ser o desafio neste início de milênio. Essa possibilidade não implica na renúncia aos mitos fundadores de qualquer sistema, mas justamente em reconhecer que a transcendência opera no real, ou seja, em algo que somente se pode tocar pelas bordas, enfim, no qual a palavra irá fundar, por definição, mas que não se pode querer salvar ninguém.
Mais cedo ou mais tarde se percebe que o conflito e sua manutenção ocupam o lugar de um remédio imaginário contra o desalento constitutivo do sujeito, no medo que o desamparo de uma solidão aumente pelo rompimento do vínculo que um processo judicial proporciona, situação mais do que apurada no campo do Direito de Família, em que as separações, divórcios, etc. nunca terminam, justamente porque os sujeitos não podem dar cabo ao que lhes sustenta.... e a resposta estatal padrão, fundamentada na razão, é manca. Sempre. Há um para além do autos, no silêncio, no semi-dito, que condiciona o sentido do que virá depois...
No campo da mediação se constrói um conto com os materiais significantes disponíveis, sem que já se antecipe o final. Difere de uma decisão judicial que acredita ingenuamente dar a razão para alguma das partes (José Bolzan de Morais e Fabiana Spengler). Rompe-se com o padrão moderno de racionalidade, enfim, muda-se de rumo, como apontam João Salm e Rafael Mendonça. Aceita-se a parcialidade de um acontecer. Não há um projeto do que pode ser adequado para os envolvidos. Na singularidade que surgirão, por certo, a procela de significantes que serão dispostos, em algo próximo a uma “bricolage”, em que a garantia decorre da montagem conjunta dos concernidos.
Com efeito, o que se dá, de regra, são atores sociais que amam o Direito, a mediação, mas odeiam gente, contato, proximidade, como fala Luis Alberto Warat (O Ofício do Mediador). Amam as pessoas à distância, nos seus lugares, desde que os deixem em paz. A paz muitas vezes do discurso consciente contracena com o desprezo, a intolerância em relação ao outro. O encontro é similar a lógica do “amor cortês”, no sentido de evitar o encontro com a “coisa”, enfim, como no “amor cortês” é um falso amor, aqui, no caso da mediação por protocolos, é um falso respeito. Por detrás do discurso esconde-se, não raro, uma intolerância primordial. Evitar-se o encontro ao máximo, com medo do trauma que daí advém, sempre. E quando acontece o encontro, por exemplo, com a violência, o conflito, a intolerância impera soberana. Por isso que Lacan (Ética da Psicanálise), ao afirmar que o real existe, mas é impossível, refere-se ao axioma: “ama o teu próximo”, porque ele para ser amado deve permanecer a certa distância, sem encontro, porque quando isto se dá, o trauma acontece. É sobre este trauma que muitas vezes a Mediação é chamada a se manifestar. A sociedade vive numa convivência à distância, um contato sem contato, e os contatos são traumáticos por definição.
Daí o perigo dos discursos de “Paz por Paz”, alienados da dimensão humana, na esperança metafísica — e muitas vezes religiosa — de uma perenidade de humanos tornados em anjos, imaginariamente. Esse é um projeto inalcançável e que fomenta — muito de boa-fé — as atividades sociais totalitárias. Procura-se, neste pensar, uma dessubjetivação, com o apagamento da dimensão de negatividade do sujeito, de sua pulsão de morte (Freud). E os Famas de sempre procuram impor um padrão de subserviência alienada ao desejo, tornando os mediados em marionetes de um discurso opressivo e sem sentido. Procura-se, enfim, eliminar o sujeito humano que molesta.
Aceitar o sujeito é admitir que age sem o saber, movido por uma estrutura subjetiva singular, própria, embalada pelo princípio de morte, na eterna tentação de existir. Pode ser que ali, no conflito, uma tentativa de o sujeito se fazer ver, aparecer. A abordagem tradicional busca calar esta voz, não deixar o sujeito dizer de si, de suas motivações, previamente etiquetadas e formatadas. Há um sujeito no conflito. E a mediação possibilita que ele se faça ver, dando-lhe a palavra, sempre. É com a palavra, com a voz, que o sujeito pode aparecer. A violência em nome da lei, imposta, simplesmente, realimenta uma estrutura de irresignação que (re)volta, mais e mais.
Na mediação se pretende mostrar que não se pode gozar tudo, pois há um impossível a se gozar em sociedade. Busca-se, ao inverso do discurso padrão, construir laço social, e não a imposição de um respeito incondicional kantiano que, por básico, opera na lógica: não discuta, cumpra. Buscar que o sujeito enuncie seu discurso e não despeje enunciados, como diz Lebrun, ocupando um lugar e uma função. A aposta que se faz, neste contexto, pois, é a de que reconhecer o outro, a alteridade, na medida em que se descobre sujeito. Dito de outra forma, aceitar o outro sob a forma de uma relação conflituosa, para somente assim ocorre laço social. Do contrário, há intolerância. Sempre. Zizek (Arriesgar lo imposible: Conversaciones com Glyn Daly) afirma que é preciso de alguma maneira aceitar a violência, porque a tolerância à distância, própria do modelo liberal, é muito mais cínica. Enfim, arriscar o impossível: aceitar e se relacionar com o outro singular, no que a mediação, via cronópios, pode ser um sendero.
No caso de Warat, eu tinha para com ele o que Cortazar chamava de “amizade felina”, no sentido de que ele sabia quem eu era e eu sabia quem era Warat. Não há mais o que falar. Fomos amigos e tchau, cada um para o seu lado. Como hoje e a cada dia que a falta se instaura. De qualquer forma, com a sedução que ele opera, vale a descrição de Pedro Juan Gutiérrez, o qual, por certo, descreve Warat:
“Sou um sedutor. Eu sei. Assim como existem os alcoólicos irrecuperáveis, os jogadores, os viciados em cafeína, em nicotina, em maconha, os cleptomaníacos etcétera, sou um viciado em sedução. Às vezes o anjinho que tenho dentro de mim tenta me controlar e diz assim: ‘Não seja tão filho-da-p..., Luisito... Não percebe que está fazendo estas mulheres sofrerem?’. Mas aí aparece o diabinho e o contradiz: ‘Vá em frente. Elas ficam felizes assim, nem que seja só por um tempo. E você também fica feliz. Não se sinta culpado. É um vício. Sei que a sedução é um vício igual a outro qualquer. E não existe nenhum Sedutores Anônimos. Se existisse, talvez pudessem fazer algo por mim. Se bem que não tenho tanta certeza. Seguramente eu inventaria pretextos para não comparecer a suas sessões e ter de ficar lá na caradura na frente de todo o mundo, botar a mão na Bíblia e dizer serenamente: ‘Meu nome é Luis Alberto Warat. Sou um sedutor. E faz hoje vinte e sete dias que não seduzo ninguém.”
Que a Mediação seduza, famas e cronópios, mas que se adote uma postura poética do mundo, sempre. O mundo ficou menos poético sem Warat.
PS: Vale registrar que são 100 semanas da coluna Diário de Classe, na parceria de André Karam Trindade, Rafael Tomaz de Oliveira e Lenio Luiz Streck. Obrigado aos leitores e à ConJur.
Alexandre Morais da Rosa é juiz em Santa Catarina, doutor em Direito pela UFPR e professor de Processo Penal na UFSC.
Revista Consultor Jurídico, 28 de junho de 2014, 08:00h

Altar Particular - Maria Gadú


"E pobres desses rapazes que tentam lhe fazer feliz..." - Linda Rosa - Maria Gadú e Lenadro Léo


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Caminhos Entrelaçados - Eduardo Luiz de Santana Cruz






Tive a grata felicidade de estar presente no lançamento da obra "Caminhos Entrelaçados" de autoria de meu Tio Eduardo Luiz de Santana Cruz no último dia 21/06/2014 aqui em Teresina.

Eduardo Luiz é piauiense de Campo Maior, radicado em Fortaleza-CE pra mais de duas décadas. Membro da Academia de Letras Juvenal Galeno (ALJUG), cadeira 18.

"O tempo tem tempo de tempo ser; ao tempo que a incógnita do tempo não nos permite ver. Qual tempo que o tempo nos contemplará?
Eduardo Luiz de Santana Cruz

terça-feira, 24 de junho de 2014

O pior que é assim mesmo, sem tirar nem por...


(...)

Cena 2: O professor japonês e o papel da docência universitária 

Um amigo, o professor Gabriel Nogueira Dias, contou-me uma história muito interessante: há 15 anos, na Alemanha, ele conversou com um professor japonês, que lecionava em uma prestigiosa Faculdade de Direito norte-americana, e dele ouviu uma desoladora descrição sobre a docência superior nos Estados Unidos. Mais e mais, segundo o professor japonês, o docente transformava-se em um educator e um entertainer.

Os alunos chegavam aos bancos universitários sem uma formação básica em matéria de comportamento social, sobre como se portar em ambientes públicos e sem noções de valores éticos. Os milhares de professores de ensino fundamental e médio no Brasil sabem do que eu estou a falar. Com pais ocupadíssimos em razão de suas carreiras profissionais, aos professores restou a missão (para a qual não são pagos e não têm formação específica) de lhes oferecer também a educação que se aprendia outrora em casa. Segundo o professor japonês, esse papel havia sido atribuído aos docentes universitários, que perdiam tempo precioso com a transmissão do saber técnico (para o que eles eram remunerados) e tinham ainda de agir como educators e não como professors.

A decadência, narrada pelo professor japonês, não se resumia a isso. Exigia-se ainda dos docentes universitários que fossem entertainers. Não bastava preparar-se, estudar a sério, pesquisar e lecionar com base em estruturas e fundamentos epistemológicos sérios. Era preciso que o docente fosse cool, atraísse os alunos com piadas, que lhes contasse historinhas, que agisse como se a sala de aula fosse um misto de palco de stand-up comedy e um programa estilo talk show. Ensinar coisas que realmente importariam para a vida profissional seria algo chato e desinteressante. Falar de leis, textos constitucionais, de História do Direito, de Filosofia do Direito ou de Direito Comparado? Eis algo aborrecido e chato. Sem os recursos de um bom entertainer, não se conseguiria manter os alunos atentos. De preferência, era bom que o professor usasse de métodos audiovisuais e não enchesse muito os discentes com conteúdos “pesados”.

(...)

O professor japonês, com 15 anos de antecedência, descreveu uma realidade que finalmente chegou ao Brasil...

sábado, 21 de junho de 2014

O Condicionado - The Conditioned


Viver e morrer são simples etapas de algo maior e incognoscível...


"Eu morro todos os dias - e é por isso que eu vivo"

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Na vida, há um caminho que devemos transpor, a cada passo um espinho, a cada légua uma flor...(Irmã Ruth) - Da série: "Filosofia achada na rua"

Inscrição de muro próximo ao "Viaduto do Mafuá" na Av. Miguel Rosa - Teresina-PI

Leituras de maio e junho...













Arlindo Cruz & Caetano Veloso - Trilha do Amor


É preciso saber de onde dar o primeiro passo... - Da série: "Filosofia achada na rua"

 
Inscrição de muro próximo ao "Viaduto do Mafuá" na Av. Miguel Rosa - Teresina-PI.

Esta inscrição tem algo camusiano...
 

domingo, 15 de junho de 2014

Sobre o "Princípio da Verdade Real"...

Sabe o "Princípio da Verdade Real"? É uma mentira!
Há muito Fernando Pessoa já provou isso...
Confiram.

Abraço,

Danilo.
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A certeza — isto é, a confiança no carácter objectivo das nossas percepções,

Fernando Pessoa

A certeza — isto é, a confiança no carácter objectivo das nossas percepções, e na conformidade das nossas ideias com a «realidade» ou a «verdade» — é um sintoma de ignorância ou de loucura. O homem mentalmente são não está certo de nada, isto é, vive numa incerteza mental constante; quer dizer, numa instabilidade mental permanente; e, como a instabilidade mental permanente é um sintoma mórbido, o homem são é um homem doente.
Acumulei no parágrafo primeiro deste escrito estes, não só paradoxos, mas paradoxos contraditórios para que desde logo o leitor visse claramente, por não ver claramente, em que rede de ideias nos enleamos se queremos distinguir com qualquer espécie de clareza em que fundamentos assentam os conhecimentos. Passo agora a demonstrar o que disse sucinta e paradoxalmente.
Distinguirei, no fenómeno chamado certeza, a parte subjectiva e a objectiva — a certeza em si, e aquilo de que há certeza. Considerada em si, a certeza nada vale. Nenhum de nós tem mais certeza de ter diante de si esta página que tem um perseguido de estar sendo perseguido por numerosos «inimigos», ou um megalómano de ser Jesus Cristo, ou Deus, ou Imperador do Mundo. O lugar das certezas absolutas, inteiras, que não sentem dúvida nem hesitação, é o manicómio.
Pode arguir-se que é perfeitamente «demonstrável» que o louco que se julga Jesus Cristo não é realmente Jesus Cristo. É demonstrável como? É demonstrável a quem? Como demonstraremos que ele não é Jesus Cristo? Como lhe o demonstraremos a ele ? Para demonstrarmos, absolutamente, que ele não é Jesus Cristo, ou Deus, ou Imperador do Mundo, ou um bule, um balde ou uma pedra, era preciso que tivéssemos sobre estes objectos ou ideias uma ideia absoluta; ora de todos eles — e, no fundo, igualmente — não temos outra ideia que não a nossa própria, ou, quando muito, a que é comum a nós e a vários outros indivíduos, isto é, não temos senão uma ideia forçosamente relativa; de onde se vê que o mais que podemos objectar (de longe, para maior segurança) a esse a quem chamamos louco é que para nós ele não é Jesus Cristo, ou Deus, ou Imperador do Mundo, ou bule ou balde ou pedra. Isto, vendo melhor, equivale simplesmente a dizer que temos sobre estes objectos (e sobre ele) uma ideia diferente da que ele tem; o que no fundo vem a significar que ele e nós somos pessoas diferentes. Nem nos vale o valermo-nos do argumento (que o não é senão para os mistificadores que inventaram a democracia) [que] daria como falsa a ideia de que a terra gira à roda do sol, quando a não tinha senão Copérnico, e a humanidade em geral tinha a contrária. Nada nos pode provar que, na realidade absoluta, ou do «outro lado» da aparência das coisas, ele não esteja na ciência e nós na ignorância e no atraso.
Mas, se é já difícil e incerto o conceber-se possível uma impossível demonstração absoluta disso, ou de qualquer coisa, mais difícil, mais impossível (se a expressão pode empregar-se) seria o demonstrar-lhe a ele que não é Jesus Cristo, ou o que quer que seja que se julga. Suponhamo-nos empenhados (por um propósito que devia valer-nos o internamento ao lado dele) em provar a um doido que se julga bule que ele não é com efeito um bule. Pegamos ingenuamente num bule e pomo-lo defronte dele; feito isto, perguntamos-lhe: «Isto é que é um bule; ora veja bem — o senhor parece-se com isto?» Ele responder-nos-á, ou «isso não é um bule; eu é que sou um verdadeiro bule»; ou «sim senhor: sou perfeitamente igual a esse bule». A este argumento, o que objectaremos, que valha, quer para ele, quer até para nós como racionadores? Não poderemos objectar nada. O que, no fundo, queremos fazer é negar a objectividade das impressões dele. As impressões dele, porém, são dele, que não nossas; ele é que as sente, e legitimamente não pode aceitar — como nós não aceitaríamos se ele quisesse converter-nos ao seu ponto de vista — uma crítica das suas impressões vinda inteiramente do exterior, isto é, vinda de quem as não sente e não pode portanto legitimamente criticá-las. Só se estivéssemos dentro dele, dentro do espírito dele, é que poderíamos criticar as suas impressões, que seriam também as nossas; mas é possível, que então, com esta crítica dentro de si, ele não se julgue já bule — ou (quem sabe?) se julgasse muito mais bule do que dantes.
                                *
Posto, assim, e assim assente, que a certeza tem um carácter puramente subjectivo, desde logo reparamos que nenhuma certeza pode verdadeiramente prevalecer objectivamente sobre outra. Numa sociedade, ou agrupamento, onde haja um número a de pessoas e haja 1 com uma certeza e a -1 com outra, nada prova que a «verdade» ou objectividade esteja mais do lado do 1 do que do lado do a -1, pois que a -1 subjectividades não somam objectividade, pela mesma razão que quatro cavalos não somam um elefante. O mais que pode concluir-se de haver a -1 certezas de um lado e 1 do outro é que há a -1 pessoas subjectivamente, ou mentalmente, parecidas — pelo menos em relação ao assunto sobre que estão em certeza —, e 1 pessoa que se não parece com essas. Redunda tudo, em última análise, numa questão de semelhança e dessemelhança temperamental ou mental, e isto nada adianta quanto à «verdade» objectiva do assunto sobre que se dá a divergência de «certezas».
Uma objecção desde logo ocorre. O critério da objectividade (dir-se-á) é a mesma objectividade; basta que encontremos um processo de verificação liberto de elementos subjectivos para que, pelo menos em certo modo, a objectividade de um fenómeno se possa determinar. É esse o género de investigação a que chamamos científica. Faz-se ela de três modos — por observação directa, por cálculo, e por observação indirecta (que consiste no emprego de aparelhos especiais) .
Quanto mais examinarmos esta objecção, mais profundamente verificaremos que em nenhum ponto ela colhe. A observação directa, evidentemente, deixa-nos no mesmo caso em que estávamos, entregues às nossas subjectividades, corrigendas apenas umas pelas outras e sempre fora da objectividade verdadeira. O cálculo adquire já, aparentemente, uma meia-objectividade, que é a objectividade abstracta da matemática. A matemática, porém, é puramente uma criação do espírito — seja do espírito em plena abstracção, seja do espírito em abstracção de impressões sensoriais primárias, o que para o caso não importa. A «certeza» da matemática é uma certeza só dentro da matemática; o que chamamos 2 somado ao que chamamos 3 dá o que chamamos 5, mas que certeza temos que quando vemos 2 e 3 no mundo «externo» haja ali realmente 2 e 3, e não 4 e 7 por exemplo? Que certeza temos que haja nesse mundo «externo» qualquer coisa efectivamente designável como 2 e 3? O cálculo matemático, longe de nos aproximar de uma «objectividade» certamente objectiva, antes dela nos afasta, pois é apenas um critério subjectivo de verificar impressões que são forçosamente subjectivas: onde julgamos ter uma objectividade temos apenas duas subjectividades.
A investigação por meio de aparelhos parece, à primeira vista, oferecer um processo seguro, ou pelo menos mais seguro que qualquer outro, de se chegar à objectividade. Não é assim. Esses aparelhos, sobre serem fabricados por nós, isto é, sob a acção construtiva de impressões nossas, hão, ainda, de ser lidos por nós; e aqui estamos outra vez trazidos à nossa subjectividade. Acresce — para que vamos até ao fim exacto do argumento legítimo — que não sabemos até que ponto podemos influenciar aparelhos. Não é impossível que possamos projectar alucinações, se elas forem suficientemente fortes ou suficientemente emitidas de qualquer modo especial, sobre aparelhos que construímos; é concebível que uma chapa fotográfica possa receber uma emissão de imagens puramente «mentais», que ela possa ser, por assim dizer, hipnotizável. Tanto quanto podemos avaliar, a constituição da matéria parece ser uniforme, e a mesma portanto no nosso corpo e cérebro que nos seres a que chamamos inorgânicos; nem vem para o caso o objectar-se que essa uniformidade e essa matéria também são conceitos nossos, porque não vem para o caso objectar precisamente o que o opositor quer provar. E, se a constituição da matéria é assim idêntica, nada obsta a que creiamos que as imagens mentais são emissisíveis materialmente, são ou fenómenos de emissão etérica, ou qualquer coisa assim, ou acompanhadas por tais fenómenos, e não seja portanto possível que uma chapa fotográfica seja impressionada por essa emissão mental do mesmo modo que o é por uma emissão a que chamamos «luminosa».
Assente, pois, que a certeza em si não é certeza, que não há passagem lógica da subjectividade da certeza para a objectividade da verdade ou realidade, resta que investiguemos se essa passagem se pode encontrar estudando nós, não a certeza em si, subjectiva, senão a certeza objectiva, ou seja o conteúdo da certeza, aquilo de que há certeza.
Revertamos ao exemplo, propositadamente grotesco, que nos serviu convenientemente de ponto de partida. Vimos já, levando a análise até os seus últimos escaninhos, que, considerada, a certeza em si, e o seu conteúdo como objecto de certeza, não há mais objectividade na nossa certeza de que temos diante de nós esta página de papel que na certeza do megalómano de que é Jesus Cristo ou do delirante de que é um bule. Procuremos agora estabelecer qualquer diferença entre essas duas certezas por meio de seus conteúdos.
s.d.
Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968.
 - 246.

domingo, 8 de junho de 2014

Heidegger e uma conclusão que muitos veem mas não enxergam...

Contribuição sempre pertinente de Dyego Phablo.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Quem sabe, cala.

56 - A serenidade do sábio

Quem sabe, cala.
Quem fala, não sabe.
O sábio vive calado,
Voltado para dentro de si;
Mitiga o que é agudo,
Deslinda o que é emaranhado,
Suaviza o que é violento,
Nivela-se com o que é singelo.
Assim conscientiza ele a Realidade.
Unifica-se com o grande Uno,
Mantém-se eqüidistante de simpatia e antipatia,
Indiferente a lucro e perda,
Acima de louvor e vitupério.
É nisto que ele vê a verdadeira nobreza.


Lao-Tsé
  Tao Te Ching - São Paulo: Martin Claret, ed. 5ª, 2013, p. 112.

domingo, 1 de junho de 2014