domingo, 23 de fevereiro de 2014

"O Dostoiévski de Joseph Frank" por David Foster Wallace - Coletado no site Literatura Russa


"O Dostoiévski de Joseph Frank", de David Foster Wallace

O Dostoiévski de Joseph Frank¹

David Foster Wallace
Tradução: Guilherme Bandeira

Dê uma olhada prolegômena em duas citações. A primeira é do Edward Dahlberg, um carrancudo do nível-Dostoiévski, se algum dia em inglês houve algum:

“Os cidadãos se protegem contra os gênios pela adoração icônica. Pelo toque da vara de condão, perturbadores divinos são traduzidos com bordados suínos.[2]

A segunda é do Pais e Filhos de Turguêniev:
- Nesta época, negação é o mais útil de tudo – e nós negamos –
- Tudo?
- Tudo!
- O que, não só em arte e poesia... mas também... horrível dizer...
- Tudo. Repetido por Bazarov, com uma indescritível compostura.


            Retrospectivamente, em 1957 um Joseph Frank, então com trinta e oito anos, professor de Literatura Comparativa em Princeton, está preparando aulas sobre existencialismo, e começa seu trabalho pelo Memórias do Subsolo de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski. Como todo mundo que leu pode confirmar, Memórias (1864) é um pequeno romance poderoso mas extremamente estranho, e ambas as qualidades têm a ver com o fato de que este livro é ao mesmo tempo universal e particular. A “doença” auto-diagnosticada do protagonista – uma mistura de grandiosidade e auto-desprezo, raiva e covardia, fervor ideológico e inabilidade auto-consciente de agir de acordo com suas convicções: seu caráter paradoxal e auto-negativo – faz dele uma figura universal em quem podemos ver partes de nós mesmos, o mesmo tipo de tipo de arquétipo eterno como Ajax ou Hamlet. Mas ao mesmo tempo, Memórias do Subsolo e seu Homem do Subsolo são de fato impossíveis de entender sem algum conhecimento do clima intelectual da Rússia nos anos de 1860, particularmente o frisson do socialismo utópico e estética utilitarista então em voga entre a intelligentsia radical, uma ideologia que Dostoiévski repugnava com um tipo de paixão com que só Dostoiévski conseguia repugnar.
            De qualquer forma, Professor Frank, enquanto passeava por este pano de fundo contextual particular para dar aos seus alunos uma leitura abrangente de Memórias, começou a se interessar por usar a ficção de Dostoiévski como uma espécie de ponte entre duas formas distintas de interpretar literatura, um viés puramente estético formal vs. uma crítica sócio-barra-ideológica que só se preocupa com as suposições temáticas e filosóficas por trás delas[3]. Esse interesse, mais quarenta anos de trabalho intelectual, rendeu os primeiros quatro volumes da pesquisa projetada em cinco volumes da vida e época e escritos de Dostoiévski. Todos os volumes foram publicados pela Princeton U. Press. Todos os quatro são intitulados Dostoiévski e têm subtítulos: As Sementes da Revolta, 1821-1849 (1976); Os Anos de Provação, 1850-1859 (1984); Os Efeitos da Liberação, 1860-1865 (1986); e esse ano, em uma capa dura extremamente cara, Os Anos Milagrosos, 1865-1871. Professor Frank deve estar lá com seus setenta e cinco anos, e a julgar pela sua foto na contra capa de Os Anos Milagrosos ele não está exatamente vigoroso[4], e provavelmente todos os estudiosos sérios de Dostoiévski estão esperando ansiosamente para ver se Frank agüenta tempo suficiente para trazer seu estudo enciclopédico até o começo dos anos 1880, quando Dostoiévski acabou o quarto de seus Grandes Romances[5], proferiu seu famoso Discurso sobre Púchkin, e morreu. Mesmo que o quinto volume de Dostoiévski não seja escrito, porém, a publicação agora do quarto garante o status de Frank como o biógrafo definitivo de um dos melhores escritores de ficção que já existiu.
 
(...)
 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Desejos Vãos - Florbela Espanca

 
Desejos vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a Árvore tosca e tensa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol, altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...

domingo, 16 de fevereiro de 2014

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Tribo de Jah... "Solidão na estrada, amor perdido em vagas rotas, escalas, remota destinação..."

Essa sequencia de músicas é pura nostalgia! Faz lembrar grande parte de minha adolescência... Mesmo nunca tendo pisado num baile de reggae, as músicas da Tribo de Jah (uma das melhores bandas de reggae do mundo!) sempre tocavam nas emissoras de rádio de Teresina entre 1995 e 2000, suas mensagens de paz, amor e boas vibrações são incomparáveis!

Curtam as pedras,

Danilo.


A grandeza do homem está em ser ponte e não meta... - Nietzsche

Zaratustra (ainda Nietzsche) ao contemplar admirado a multidão, falou:

“O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem – uma corda sobre o abismo. Perigosa a travessia, perigoso o percurso, perigoso olhar para trás, perigoso o tremor e a paralisação.

A grandeza do homem está em ser ponte e não meta: o que nele se pode amar é o fato de ser ao mesmo tempo transição e declínio.

Amo os que só sabem viver em declínio, pois são os que transpõem.

Amo os que desprezam com intensidade, pois sabem venerar intensamente, e são flechas lançadas pelo anseio-da-outra-margem. (...)

Amo o que ama a sua própria virtude, pois que a virtude é vontade de declínio e flecha do desejo.
 
Amo o que não guarda para si nem uma só gota de seu espírito mas quer ser inteiramente o espírito de sua própria virtude. É dessa forma que ele, como espírito, atravessa a ponte.

Amo o que faz da virtude inclinação e destino, pois ele, por amor à sua virtude, quer viver ainda e não mais viver.

Amo o que não quer virtudes em demasia. Uma única virtude é mais virtude do que duas, pois ela é o nó mais forte onde se ata o destino.

Amo o que prodigaliza sua alma, e que, ao fazer isto, não visa á gratidão nem ao pagamento; pois sempre dá e nada quer em troca.

Amo o que se envergonha quando o dado cai a seu favor, e então pergunta: serei um trapaceiro? – pois é para sua ruína que ele quer se encaminhar.

Amo o que antecede com palavras de ouro os seus atos e sempre cumpre mais do que promete; pois ele quer o seu declínio.

Amo o que justifica os que serão e resgata os que foram; pois quer perecer por aqueles que são.

Amo aquele que pune seu Deus porque o ama; porquanto só poderá perecer pela cólera de seu Deus.

Amo o que, mesmo ferido, tem a alma profunda, e que um simples acaso pode fazer perecer. Assim, ele atravessa de bom grado a ponte.

Amo aquele cuja alma transborda e a tal ponto se esquece de si que todas as coisas nele encontram lugar. Assim, todas as coisas se tornam seu declínio.

Amo todos aqueles que são como pesadas gotas caindo uma a uma da negra nuvem que paira sobre os homens; anunciam a chegada do raio e perecem como anunciadores (...).”