terça-feira, 24 de junho de 2014

O pior que é assim mesmo, sem tirar nem por...


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Cena 2: O professor japonês e o papel da docência universitária 

Um amigo, o professor Gabriel Nogueira Dias, contou-me uma história muito interessante: há 15 anos, na Alemanha, ele conversou com um professor japonês, que lecionava em uma prestigiosa Faculdade de Direito norte-americana, e dele ouviu uma desoladora descrição sobre a docência superior nos Estados Unidos. Mais e mais, segundo o professor japonês, o docente transformava-se em um educator e um entertainer.

Os alunos chegavam aos bancos universitários sem uma formação básica em matéria de comportamento social, sobre como se portar em ambientes públicos e sem noções de valores éticos. Os milhares de professores de ensino fundamental e médio no Brasil sabem do que eu estou a falar. Com pais ocupadíssimos em razão de suas carreiras profissionais, aos professores restou a missão (para a qual não são pagos e não têm formação específica) de lhes oferecer também a educação que se aprendia outrora em casa. Segundo o professor japonês, esse papel havia sido atribuído aos docentes universitários, que perdiam tempo precioso com a transmissão do saber técnico (para o que eles eram remunerados) e tinham ainda de agir como educators e não como professors.

A decadência, narrada pelo professor japonês, não se resumia a isso. Exigia-se ainda dos docentes universitários que fossem entertainers. Não bastava preparar-se, estudar a sério, pesquisar e lecionar com base em estruturas e fundamentos epistemológicos sérios. Era preciso que o docente fosse cool, atraísse os alunos com piadas, que lhes contasse historinhas, que agisse como se a sala de aula fosse um misto de palco de stand-up comedy e um programa estilo talk show. Ensinar coisas que realmente importariam para a vida profissional seria algo chato e desinteressante. Falar de leis, textos constitucionais, de História do Direito, de Filosofia do Direito ou de Direito Comparado? Eis algo aborrecido e chato. Sem os recursos de um bom entertainer, não se conseguiria manter os alunos atentos. De preferência, era bom que o professor usasse de métodos audiovisuais e não enchesse muito os discentes com conteúdos “pesados”.

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O professor japonês, com 15 anos de antecedência, descreveu uma realidade que finalmente chegou ao Brasil...

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