quarta-feira, 30 de abril de 2014

Quando eu entro numa sala de aula... - Luis Alberto Warat

Segue belíssimo excerto de Warat que me foi enviado pelo amigo Dyego Phablo.
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"Eu sou um mágico, um ilusionista, um vendedor de sonhos, de ilusões e fantasias. Quando eu entro numa sala de aula, proponho, imediatamente, a substituição do giz por uma cartola. Dela sairão mil verdades transformadas em borboletas. Eu sou uma abelha vampiro, uma abelha de ilusão que suga verdades, os fragmentos de múltiplos saberes, as palavras que me acariciam - para construir os favos em que desejo pôr o mel. Com meu comportamento docente procuro a utopia, falsifico a possibilidade de construção de um mundo, de/e pelo desejo. Ministro sempre uma lição de amor, provoco e teatralizo um território de carências. Quando invado uma sala de aula se amalgamam ludicamente todas as ausências afetivas. O aprendizado é sempre um jogo de carências.
De diferentes maneiras sempre me preocupo em expor à crítica a vontade de verdade, a partir da vontade do desejo, como bom alquimista que sou, transformo o espaço de uma sala de aula em um circo mágico. Assim é que executo a função pedagógica da loucura.
Isso me converte inexoravelmente em um judeu errante. É no devir que a loucura pedagógica - como erótica marginal - adquire seu sentido pleno. O circo não pode parar nunca, deter-se é não levar mais alegria para lugar algum. Para se ter alegria, é preciso sempre sentir o circo voltando. 
Eu me sinto um circo mágico, talvez um circo mambembe, um circo com muitos cachorros vira-latas e nenhum animal domesticado. Sinto-me um circo safado, marginal, onde é preciso ter também a ilusão do próprio circo e o encanto de uma mentira bem sustentada. Necessito que, em meu circo, os palhaços também riam para eles mesmos.
É preciso que a sala de aula vire magia para que possam desenvolver-se numerosas fantasias novas. Nesse ponto é que o público de um circo mambembe se sentirá participando do circo de Moscou. A grandeza de uma ilusão depende de quem a recebe. Para isso é preciso de um espaço de ambivalência. Na ambivalência do discurso é que se constitui a ilusão. Na imprecisão significativa é que está o 'locus nascendi' dela, o estímulo das paixões.
Eu sou um jogador do ambíguo; esse é meu segredo pedagógico. 
A teoria é a arquibancada da vida. Meu circo não tem arquibancada como condição de um desejo de derrota. tem o prazer de viver as ruínas de uma falsa claridade assumida diante do mundo, quebrando a continuidade das instituições morais. Porque a não razão do desejo deve revelar a inconsistência do mundo razoável. A ilusão da verdade deve morrer para dar passo a um novo mundo amoroso fundado numa ilusão logocêntrica chamada loucura.
O meu ensino é pura utopia"

(Luis Alberto Warat, em A Ciência Jurídica e seus dois maridos, p. 183-185).

3 comentários:

Literatores disse...

Luis Alberto Warat é a cara do Dyego Phablo. Escreve divinamente bem.

Dyego Phablo disse...

Olha que legal! Entro aqui e me deparo com essas coisas! Rsrs

Danilo N. Cruz disse...

Tô avisando, vamos divulgar o blog, para que possamos sempre ter boas surpresas como essa!
Abraços lítero-hermenêuticos,
Aos Literatores e ao Dom Dyego Phablo Warat...

Danilo.