segunda-feira, 12 de maio de 2014

Cantares - Antonio Machado

Cantares

Tudo passa e tudo fica,
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos,
caminhos sobre o mar.

Nunca persegui a glória,
nem deixar na memória
dos homens minha canção,
eu amo os mundos sutis,
leves e gentis,
como bolhas de sabão.

Gosto de vê-las pintar-se
de sol e grená, voar
sob o céu azul, tremer
subitamente e quebrar…

Nunca persegui a glória.

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se o caminho ao andar

Ao andar se faz caminho
e ao voltar os olhos para trás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar.

Caminhante não há caminho
senão marcas no mar…

Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
“Caminhante não há caminho,
faz-se caminho ao andar”…

Golpe a golpe, verso a verso…

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe viram chorar
“Caminhante não há caminho,
faz-se caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso.

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