terça-feira, 20 de novembro de 2012

Estatuto do Homem - Thiago de Mello


    ESTATUTO DO HOMEM 
       (Ato Institucional Permanente) 
      
                                              A Carlos Heitor Cony 
      
        Artigo I 
      
       Fica decretado que agora vale a verdade. 
       agora vale a vida, 
       e de mãos dadas, 
       marcharemos todos pela vida verdadeira. 
      
      
       Artigo II

       Fica decretado que todos os dias da semana, 
       inclusive as terças-feiras mais cinzentas, 
       têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 
      
      
       Artigo III 
      
       Fica decretado que, a partir deste instante, 
       haverá girassóis em todas as janelas, 
       que os girassóis terão direito 
       a abrir-se dentro da sombra; 
       e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 
       abertas para o verde onde cresce a esperança. 
      
      
       Artigo IV 
      
       Fica decretado que o homem 
       não precisará nunca mais 
       duvidar do homem. 
       Que o homem confiará no homem 
       como a palmeira confia no vento, 
       como o vento confia no ar, 
       como o ar confia no campo azul do céu.


      
               Parágrafo único: 
      
               O homem, confiará no homem 
               como um menino confia em outro menino. 
      
      
       Artigo V 
      
       Fica decretado que os homens 
       estão livres do jugo da mentira. 
       Nunca mais será preciso usar 
       a couraça do silêncio 
       nem a armadura de palavras. 
       O homem se sentará à mesa 
       com seu olhar limpo 
       porque a verdade passará a ser servida 
       antes da sobremesa. 
      
      
       Artigo VI 
      
       Fica estabelecida, durante dez séculos, 
       a prática sonhada pelo profeta Isaías, 
       e o lobo e o cordeiro pastarão juntos 
       e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 
      
      
       Artigo VII


       Por decreto irrevogável fica estabelecido 
       o reinado permanente da justiça e da claridade, 
       e a alegria será uma bandeira generosa 
       para sempre desfraldada na alma do povo. 
      
      
       Artigo VIII 
      
       Fica decretado que a maior dor 
       sempre foi e será sempre 
       não poder dar-se amor a quem se ama 
       e saber que é a água 
       que dá à planta o milagre da flor. 
      
      
       Artigo IX


       Fica permitido que o pão de cada dia 
       tenha no homem o sinal de seu suor. 
       Mas que sobretudo tenha 
       sempre o quente sabor da ternura. 
      
      
       Artigo X


       Fica permitido a qualquer pessoa, 
       qualquer hora da vida, 
       o uso do traje branco. 
      
      
       Artigo XI 
      
       Fica decretado, por definição, 
       que o homem é um animal que ama 
       e que por isso é belo, 
       muito mais belo que a estrela da manhã. 
      
      
       Artigo XII 
      
       Decreta-se que nada será obrigado 
       nem proibido, 
       tudo será permitido, 
       inclusive brincar com os rinocerontes 
       e caminhar pelas tardes 
       com uma imensa begônia na lapela.


      
               Parágrafo único: 
      
               Só uma coisa fica proibida: 
               amar sem amor. 
      
      
       Artigo XIII 
      
       Fica decretado que o dinheiro 
       não poderá nunca mais comprar 
       o sol das manhãs vindouras. 
       Expulso do grande baú do medo, 
       o dinheiro se transformará em uma espada fraternal 
       para defender o direito de cantar 
       e a festa do dia que chegou. 
      
      
       Artigo Final. 
      
       Fica proibido o uso da palavra liberdade, 
       a qual será suprimida dos dicionários 
       e do pântano enganoso das bocas. 
       A partir deste instante 
       a liberdade será algo vivo e transparente 
       como um fogo ou um rio, 
       e a sua morada será sempre 
       o coração do homem.
Santiago do Chile, abril de 1964

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