domingo, 23 de setembro de 2012

Oração ao tempo - Caetano na voz de Gadú - Traços de Heidegger na MPB - "De modo que o meu espírito, ganhe um brilho definido, tempo, tempo, tempo, tempo, e eu espalhe benefícios, tempo, tempo, tempo, tempo...


Oração ao Tempo
Caetano Veloso

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e migo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

2 comentários:

Dyego Phablo disse...

O tempo. Palavra que me é muito cara. Aliás, para os heideggerianos em geral. Há um poema da Cecília Meireles fantástico que se chama "Entender é sempre limitado". Hermenêutica filosófica (gadameriana) pura! Trabalha de uma maneira ou de outra com o tempo. Pois é. O tempo. Sobre o tempo. Já escrevi uma vez. Lembro-me. Posto aqui novamente.
"CONFISSÕES. I NEED.
Certamente, muitas coisa me intrigam. Muitas coisas mesmo. Embora o "julgar" de um juiz seja uma dessas coisas, não é, no entanto, a principal. Refiro-me ao julgar de maneira ampla. É muito difícil julgar as pessoas. Traz inevitavelmente uma carga moral terrível, como diz o grande Amilton Bueno. Eu sinto isso até quando faço uma simples (?) minuta de decisão ao, por exemplo, deferir ou indeferir tutela antecipada a uma pessoa que diz estar com a saúde deplorável. Eis o dilema: deferir ou indeferir? E vem outras perguntas: será que essa pessoa tem a ética do discurso? Será que ela, realmente, está falando a verdade? E a angústia aumenta. É claro que se trata apenas de uma minuta (esboço). O juiz irá analisar. Se tiver boa, ok. Se não, ele modifica. É inclusive dever dele fazer isso. No mundo pós-moderno (?) da quantidade, dos números, das estatísticas, dos resultados, dos fins justificando os meios, não sei, no entanto, se ele faz. Mas tem que fazer. Então, até numa simples minuta eu sinto essa carga, que é da própria existência mesma.
Mas ainda assim, tem outra coisa que sempre me intrigou (desde moleque), intriga ainda mais e faz com que eu sempre sinta ânsia em decifrá-lo: o tempo! Como ele é enigmático. Aliás, fazendo uma autocompreensão, talvez por isso eu tenha (sempre tive desde a primeira vez que vi) a vontade de ler Ser e Tempo de Martin Heidegger. Porque ele, tempo, e consequentemente a história, nunca se repetem, já diria meu professor Ismar Tavares - nunca esqueci dessa frase - pessoa que exerceu profunda influência nas minhas convicções ideológicas (ele nem sabe disso). Mas exerceu. Tem também o professor Evandro, de história. Um anarquista. Também me influenciou muito. Achava muito bom quando ele falava dos sofistas. Da verdade. Da relação entre os fins e os meios, já presente nos sofistas. Do convencionalismo sofístico, etc. Coisas que de uns tempos pra cá tive a oportunidade de aprofundar um pouco mais. Mas enfim. O tempo é fantástico! "A linguagem é a casa do ser", diz Heidegger. Colocaria aí o tempo também. Aliás, o traço fundamental de Gadamer foi colocar a historicidade na linguagem, trazendo isso para a hermenêutica. Aliás, de novo a autocompreensão: talvez por isso eu goste tanto de hermenêutica. Hermenêutica é filosofia. Não é método! Nem filologia. É compreensão de mundo. Do próprio ser. Veem um "quê" filosófico aí? A questão do tempo, do ser, da situação, do Da (aí), do estar, da história, do horizonte. Da compreensão! E não tem como isso tudo ficar solto por aí. Tudo isso se dá no tempo. E o mais legal disso tudo é que o tempo nos dá a oportunidade de que, a todo momento, nós nos renovemos. E que mudemos. E que certas pessoas passem pelas nossas vidas, apenas passem... como que transeuntes. E que o passado sirva apenas de lição. De memória. De aprendizado. E que, a partir do passado, tomemos uma consciência histórico-efetual (Gadamer). Uma consciência para o futuro. Um projetar possibilidades. É por isso que a filosofia hermenêutica (heidegger) e a hermenêutica filosófica (gadamer) são fantásticas. Porque lidam com o tempo. E o tempo, mesmo que enigmático e que não entendamos nada sobre ele, é fantástico!"

Danilo N. Cruz disse...

Caro Dyego,

Talvez Vinicius tenha, por isso, em Poética, proclamado: "Meu tempo é quando."

Abraço e obrigado pela visita.

Danilo