quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Eu infinito - Texto da talentosa escritora piauiense Clara Mello


Me recuso a me colocar em prateleira, seja qual for, e por melhor que seja. Não posso com toda a minha pluralidade, delimitar o que sou e o que claramente não sou. Há momentos, e eu me permito e me moldo à cada um deles, conforme as minhas vontades e faces. Porque isso é ser quem eu sou, em minha máxima essência.

Todo ser humano sustenta em si a máxima das contradições, eu me permito carregar esse fardo. Ora tombando, Ora com leveza, mas com certeza nunca serei uma coisa só. 

Não pretendo me limitar no que se espera, afinal, o que sou muda muito conforme a percepção. Tudo que tenho em mim depende do que eu quero mostrar no momento, do que precisa ser visto no instante, e do que se quer enxergar. Quando ouço dizer “Isso não é a sua cara”, eu me pergunto “Qual delas?”

Toda pessoa é um mundo tão diverso e secreto, que nunca descobriremos sua dimensão. Se são exatamente nossas múltiplas formas o nosso fascínio, por que eu vou querer ser uma coisa só?

Não forço, não me esforço, sigo as minhas vontades e o meu coração. Sou de corpo e alma para tudo, e talvez essa seja a essência da minha personalidade. As poses, os vestidos, até os discursos, todos eles se transformam sem deixar de me pertencer. Se eu surpreender, não é porque estou deixando de ser o que sou, mas talvez mostrando algo que não se conhecia. Não é motivo para espanto nem incômodo, é só uma surpresa!

Sempre criamos imagens das pessoas, não é culpa nossa. Algumas coisas nelas se mostram com mais clareza, ou nossos olhos captam melhor certas coisas, mas é muita prepotência nossa acreditar e querer que essas mesmas pessoam sejam exatamente o que vimos.

Ninguém é capaz de dar conta de todos os mistérios que cercam o coração e alma de uma pessoa, até mesmo de uma pessoa pequenina como eu. É preciso ter cautela e paciência para abrir o coração dos outros. É preciso ter pés suaves para não pisotear o que é do outro, para não desmerecer ou soterrar o que também precisa ser mostrado.  Se não quer ver, é quase simples: feche os olhos. Mas não condene o outro, por vez ou outra, mostrar o que não se espera. 

O outro é território desconhecido e sagrado, não se pode começar a penetrar querendo traçar caminhos. É preciso entender que o que se sabe é muito pouco, e estar  sempre pronto para se surpreender sem decepção. 

Nunca conheceremos uma pessoa a ponto de  podermos delimitar suas fronteiras. Representamos infinitas possibilidades simplesmente pela condição humana, eu aceito e não me condiciono.  Sou mal explicada mesmo, e talvez seja essa a minha virtude. Encontro sentido na própria busca e equilíbrio em ser tudo ao mesmo tempo.  

Sou infinita porque sou gente. Todo tipo de gente. 

Clara Mello
Escritora piauiense radicada no Rio de Janeiro.

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