sábado, 15 de janeiro de 2011

Retratos de um passado bem presente

Pedro Pedreiro
1965 - Chico Buarque

(...)
Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
Espera alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar
Mas pra que sonhar
Se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais
Sem ficar esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento para o mês que vem
Esperando um filho pra esperar também
Esperando a festa
Esperando a sorte
Esperando a morte
Esperando o norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita
Do apito do trem.

José
1960 - Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
(...)
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
(...)
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
(...)
E agora, José?
(...)
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
(...)
Se você gritasse,
se você gemesse,
(...)
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
(...)
Mas você não morre,
você é duro, José!
(...)
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
(...)
José, para onde?

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