quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

E assim...

“Posto diante de todos estes homens reunidos, de todas estas mulheres, de todas estas crianças (sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra, assim lhes fora mandado), cujo suor não nascia do trabalho que não tinham, mas da agonia insuportável de não ter, Deus arrependeu-se dos males que havia feito e permitido, a um ponto tal que, num rebento de constrição, quis mudar o seu nome para um outro mais humano.
Falando à multidão, anunciou:
"A partir de hoje chamar-me-eis justiça".
E a multidão respondeu-lhe:
"Justiça nós a temos, e não nos atende."
Disse-lhes Deus:
"Sendo assim, tomarei o nome de Direito."
E a multidão tornou a responder-lhe:
"Direito, já nós o temos, e não nos conhece".
E Deus:
"Nesse caso, ficarei com o nome de Caridade, que é um nome bonito."
Disse a multidão:
"Não necessitamos de caridade, o que queremos é uma Justiça que se cumpra e um Direito que nos respeite".

(José Saramago)

Fonte: SPENGLER, Fabiana Marion; SPENGLER NETO, Theobaldo. Mediação enquanto política pública: a teoria, a prática e o projeto de lei. Santa Cruz do Sul/RS: Edunisc, 2010, p. 06.

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