quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Publicações de uma província chamada Piauí

Por Rosa Edite da Silveira Rocha - Mestranda da Universidade Metodista de São Paulo.

Ao longo dos anos as publicações editoriais existentes no estado do Piauí são frutos de um esforço individual de cada autor. Publica-se, ainda hoje, muito pouco no estado. As edições são não só, em sua maioria, bancadas pelos próprios autores como destinadas aos seus parentes e amigos. O governo do estado tentou, no inicio da década de 70, mudar um pouco essa historia com a criação do Plano Editorial do Piauí, mais tarde rebatizado Projeto Petrônio Portela, que pretendia ampliar o numero de publicações no estado por escritores locais. No entanto, pouca coisa mudou já que os livros editados tinham caráter propagandístico maior do que o de instrumento de difusão da literatura piauiense.

Durante muitos anos a historia literária no Piauí resumia-se, inclusive, a O.G.Rego de Carvalho e Da Costa e Silva. Aos poucos, um grupo de intelectuais liderado pelo professor e escritor Cineas Santos, procurou mudar essa perspectiva e lançaram pequenos livros e coletâneas publicados pela Editora Nossa. Esta, fundada pelo próprio Cineas não passava .de um rótulo pomposo, uma máquina de escrever e uma resma de papel sem pauta., como ele mesmo afirma em artigo intitulado A Errádica Trajetória de um Editor de Província.

Sou professor: tenho cabeça e coração de profesQuando comecei a lecionar, em 71, não se ensinava literatura piauiense nas escolas por falta de textos. Então, criei uma editora de .fundo de quintal. e publiquei uma coletânea de poemas de autores piauienses. O título do livro era Ciranda. Edição mimeografada, capa colada com grude. (SANTOS, 186, 2003).

Para a impressão dos primeiros .livrinhos., o jovem editor contava com o apoio das gráficas das escolas onde lecionava. Assim, publicou Ciranda, em 1976, coletânea com textos de poetas da literatura contemporânea local. No prefácio, o escritor afirma que a iniciativa é .coisa de quem acredita que palavras têm algum valor. (SANTOS, 187, 2003).

Pelo mesmo selo foram editados: A Continuidade Poética em Da Costa e Silva, de José Carlos de Santana Cruz; Vida de Nordestino, de João José Piripiri; A Visualização Gráfica da Estrutura da Frase, de José Reis Pereira; Ô de Casa!, coletânea de contos de 17 autores piauienses, e Humor Sangrento, de Arnaldo Albuquerque, primeira revista em quadrinhos publicada no Piauí. A Editora Nossa, que começou como um ideal literário, apesar de ter uma quantidade maior do que imaginavam de publicações, passou a causar prejuízos a Cineas. Pensando em continuar no ramo, em 1978, ele abriu com três amigos a Livraria e Editora Corisco.

Em 78, fundamos a Livraria e Editora Corisco, que lançou todos os autores piauienses de expressão, de Da Costa e Silva a Mário Faustino. As edições da Corisco eram coordenadas por mim. Não ganhei nenhum dinheiro, mas lancei livros, muitos livros, bem feitos, capas lindas, bem ilustrados. Mostrei aos piauienses que era possível fazer livros bem feitos em Teresina. (SANTOS, p 189, 2003)

No ano de sua inauguração editaram três livros: Tá Pronto, seu Lobo?, de Paulo Machado; Aviso Prévio, coletânea de poemas de autores piauienses; e A Serra das Confusões, ilustrado por Albert Piauí, do escritor H. Dobal. Apesar de Aviso Prévio não ter sido bem recebido pelos cronistas, o livro de Paulo Machado e H. Dobal entraram para a história. O primeiro tornou-se uma referência para os poetas mais jovens e o segundo foi elogiado até por jornalistas do Pasquim, inclusive Millôr Fernandes. .Um grande avanço: saímos do gueto dos marginais. Para a página nobre dos jornais. (SANTOS, p. 290, 2003)

Em 1979 publicaram Descartável, dez poemas ilustrados com xilogravuras de Fernando Costa e em 1982, Antologia Poética, de Da Costa e Silva, a primeira publicação de um dos maiores escritores do estado dentro do próprio Piauí. A Livraria e Editora Corisco, após publicar A Ficção Reunida, de O.G.Rego de Carvalho, e organizar coleções literárias de contos e poemas de autores piauienses antigos e modernos, acabou fechando suas portas em 2004. Para continuar na editoração e publicação de livros piauienses, Cineas Santos passa a usar o selo da Oficina da Palavra, uma Organização Não-Governamental que trabalha com apoio à cultura piauiense. H Dobal, Halan Silva, Paulo Machado, O.G.Rego de Carvalho, dentre outros nomes já foram editados pelo selo. Ao todo, foram mais de cem autores editados pelo professor de literatura.

Meus livros sempre foram vendidos a preço muito barato. Não tenho vocação argentária. Além do selo da Oficina, editei com o prof. Raimundo Santana alguns títulos preciosos pela FUNDAPI (Fundação de Apoio Cultural do Piauí): lançamos duas coleções belíssimas Coleção Independência (05 volumes) e Pesquisas para a história do Piauí (04 volumes)de Odilon Nunes; lançamos a Tetralogia Piauiense, do Assis Brasil. (SANTOS, em 10.05.2009)

O estado do Piauí, atualmente, não possui uma política cultural voltada para o livro. Fundações como a FUNDAC (Estadual) e FMCMC (Municipal) editam alguns livros que são premiados em concurso promovidos pelas duas instituições. Há também o selo Zodíaco, que edita em sua maioria coletâneas de ensaios; à frente o jornalista Kenard Kruel. Embora a Constituição do Piauí estabeleça que a Literatura Piauiense seja lecionada como disciplina obrigatória nas escolas públicas e privadas, isso não acontece, o que de certa prejudica o avanço do crescimento da literatura piauiense. Nos últimos anos a Universidade Federal do Piauí vem trabalhando com a editoração de livros e coletâneas de artigos acadêmicos. São esses livros que, atualmente, encontram certa penetração no meio editorial piauiense. Aos poucos eles estão adquirindo fôlego e já buscam um espaço no mercado de publicações do Piauí.

Fonte: Universidade Metodista de São Paulo

Nenhum comentário: